As mulheres podem tudo comprometer, elas podem tudo arranjar

Lendo o primeiro volume da coleção História Geral da África, eu me deparei com um trecho do subtítulo “Os africanos têm consciência de ser os agentes de sua história?” sobre a presença da mulher na história africana que me agradou bastante e quero compartilhar.

“…, ao contrário do que se tem dito e repetido à saciedade, (as mulheres) ocupam na consciência história africana uma posição sem dúvida mais importante que em qualquer outro lugar. Nas sociedades de regime matrilinear isto é facilmente compreensível. Em Uanzarba, perto de Tera (Níger), onde a sucessão na chefia era matrilinear, durante o período colonial os franceses, no intuito de reunir os habitantes dessa aldeia aos de outras aldeias songhai, haviam nomeado um homem para comandar essa aglomeração. Mas os Sonianke não deixaram de conservar sua kassey (sacerdotisa), que continua até hoje a assumir a responsabilidade do poder espiritual. Também em outros lugares as mulheres são vistas como protagonistas na evolução histórica dos povos. Filhas, irmãs, esposas e mães de reis, como essa admirável Luedji, que foi tudo isso sucessivamente e mereceu o título de Swana Mulunda (mãe do povo Lunda), ocupavam posições que lhes permitiram influir nos acontecimentos. A célebre Amina, que, na região haussa, no século XV, conquistou para Zaria tantas terras e aldeias que ainda levam o seu nome, é apenas um exemplo, entre milhares, da ideia de autoridade histórica que as mulheres impuseram às sociedades africanas. Esta ideia permanece viva até hoje na África, na atuação das mulheres na guerra da Argélia e nos partidos políticos durante a luta nacionalista pela independência ao sul do Saara. É claro que a mulher africana é utilizada também como objeto de prazer e decoração , como nos sugerem as que são mostradas envoltas em tecidos de exportação ao redor do rei do Daomé ao presidir uma festa tradicional. Mas do mesmo espetáculo participavam as amazonas, ponta de lança das tropas reais contra Oyo e os invasores colonialistas na batalha de Cana (1892). Pela sua participação eno trabalho da terra, no artesanato e no comércio, pela sua ascendência sobre os filhos, sejam eles príncipes ou plebeus, por sua vitalidade cultural, as mulheres africanas sempre foram consideradas personagens eminentes da história dos povos. Houve e ainda há batalhas para ou pelas mulheres. Porque as próprias mulheres muitas vezes desempenharam o papel de traidoras ou sedutoras. Como no caso da irmã de Sundiata ou das mulheres enviadas pelo rei de Segu Da Monzon às bases inimidas. Apesar de sofrer uma segregação aparente nas reuniões públicas, todos sabem na África que a mulheres está onipresente na evolução. A mulher é vida. E também a promessa de expansão da vida. E através dela que os diferentes clãs consagram suas alianças. Pouco loquaz em público, ela faz e desfaz os acontecimentos no sigilo do seu lar. E a opinião pública formula este ponto de vista no provérbio: “As mulheres podem tudo comprometer, elas podem tudo arranjar”.

Trecho do Volume I – Metodologia e pré-história da África (Comitê Científico Internacional da UNESCO para Redação da História Geral da África) – pág. 29

 

Significados:

Matrilinear – Diz-se do sistema de filiação e de organização social no qual só a ascendência materna é levada em conta para a transmissão do nome, dos privilégios, da condição de pertencer a um clã ou a uma classe. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa

Sonianke – Neste cã, o poder se transmite “pelo leite”, ainda que se admita que o laço de sangue contribua para reforça-lo. Entre os Cerko, porém, é unicamente através do leite que o poder é transmitido.

 

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