Dedan Kimathi

Dedan Kimathi

Dedan Kimathi foi um grande líder do Movimento Mau Mau, no Kenya. Este movimento nacionalista tinha como objetivo conquistar a independência do país, que era colônia britânica. Para os nacionalistas, Kimathi é tido como um herói; enquanto para o governo colonial, um terrorista.

No fim da décado de 1940, Kimathi tornou-se membro da União Africana do Kenya (KAU). Tornou-se secretário dessa organização que era controlada por militantes da causa de Mau Mau. O Mau Mau começou como o exército da Terra e da Liberdade. O grupo passou a ter grande influência, causando uma grande ameaça ao governo britânico. Em 1951, ao assumir o juramento do Mau Mau, as atividades de Kimathi passou a ser o grande alvo do governo colonial e, com isso, foi preso ainda no mesmo ano, mas escapando com a ajuda da polícia local. Este acontecimento deu início à sua revolta violenta, fazendo com que formasse o Conselho de Defesa do Kenya para coordenar todos os combates da floresta em 1953.

Em 1956, Kimathi foi capturado na floresta de Nyeri, assim deu-se fim à guerra florestal. O mais triste ao ler um pouco da sua história é que o júri o qual o condenou à morte era composto totalmente por pretos. E em 18 de fevereiro de 1957 ficou a data marcada pela sua execução, pendurado na prisão Kamiti Maximum Security.

Fontes:

Wikipedia

Africa is a Country

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Guiné-Bissau

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O nome oficial do país é República da Guiné-Bissau, ele fica na costa ocidental da África, estende-se do cabo Roxo à ponta do Cagete. O país ainda faz fronteira com o norte do Senegal, com o sudeste da Guiné-Conacri (ex-francesa) e ao sul e oeste com o oceano Atlântico. Guiné-Bissau, assim como alguns outros países africanos foi colônia de Portugal. O país europeu colonizou a Guiné desde o século XV até sua independência, em 24 de setembro de 1973, que só foi reconhecida internacionalmente. O reconhecimento por parte de Portugal só aconteceu no ano seguinte, em 10 de setembro de 1974.

Os povos animistas são identificados pelas belas e coloridas coreografias. Essas manifestações culturais são realizadas em momentos especiais, como em colheitas, casamentos, funerais, cerimônias de iniciação; enfim, são as danças tradicionais. O Gumbé é o ritmo que pode ser visto tanto na dança tradicional como na contemporânea, como já foi falado neste blog. Não consegui inserir um vídeo por causa do seu tamanho, mas deixo aqui o link para quem tiver interesse e assisti-lo: Danças Culturais da Guiné-Bissau.
Fonte:

Mundo da Dança – http://www.mundodadanca.art.br/2013/12/dancas-africanas-guine-bissau-balanta.html

 

 

 

Cheikh Anta Diop: o revolucionário do pensamento africano

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O protagonista de hoje é o senegalês Cheikh Anta Diop. O cara foi historiador, antropólogo, profissional da área de Letras, marcou presença na carreira política e ainda ocupa lugar na lista de um dos maiores historiadores africanos do século XX. Para ser mais exata, ele se dedicou ao estudo das origens da raça humana e cultura africana pré-colonial. As linhas a seguirem vão contar um pouco sobre a vida desse célebre e importante senegalês lembrado pelo maravilhoso povo africano, nossos irmãos, e com todas as honrarias merecidas.

Cheikh Diop nasceu em 1923 numa pequena aldeia chamada Caytou, no Senegal. Os países africanos ainda estavam sob dominação colonial europeia nesta época. Algumas personalidades estudavam para provar a inferioridade intelectual e cultural do negro. Lamentável! Dos teóricos envolvidos, pode-se citar Voltaire, Hume, Hegel, Gobineau, Levy Bruhl, etc.; das instituições, o Instituto de Etnologia da França, criado em 1925 por L. Levy Bruhl, estava também envolvido nesse estudo.

Em 1946, Diop mudou-se para Paris a fim de realizar estudos superiores em Matemática, pois tinha a intenção de seguir carreira como engenheiro da aeronáutica. Simultaneamente à faculdade de Matemática, ele se matriculou na de Filosofia e Letras da Sorbonne. O ingresso nessa última rendeu a ele sua participação da criação da Associação de Estudantes Africanos em Paris. A partir daí, Diop se vê num questionamento sobre a origem da humanidade e da civilização. Por meio de suas investigações científicas metódicas, a África ressurge como um processo de restauração da sua história. E foi para esse fato que Cheikh Anta Diop dedicou a sua vida.

Em 1947, Diop deu início às investigações linguísticas sobre wolof e o sérère. Estudou Física logo após concluir Filosofia e chegou a traduzir uma parte da Teoria da Relatividade, de Einstein, para o seu idioma nativo, o wolof. Diop teve sua tese de doutoramento negada pela Universidade de Paris pelo seguinte motivo: nela, Diop propunha que o antigo Egito tinha sido uma cultura negra; jamais iriam aceitar essa possibilidade. Não convencido pela recusa da Universidade, ele passou nove anos acumulando material que pudesse provar sua tese. Em 1955, ela foi publicada na imprensa popular em formato de livro intitulado Nations nègre er culture (Nações negras e cultura). Esse fato o tornou no historiador mais controverso do seu tempo. E cinco anos após a publicação do livro, ele conseguiu aprovação na defesa do seu doutoramento.

Após essa conquista, Diop regressou ao seu país e deu continuidade aos estudos e investigações. Seu domínio na língua materna, o wolof, é uma das principais chaves para o estudo da civilização faraônica. A Universidade de Dakar criou um laboratório de radiocarbono para colaborar na sua investigação. Afinal para que o historiador pudesse indicar com precisão o conteúdo de melanina das múmias egípcias, era necessário usar as técnicas com o radiocarbono.

Em sua vida política, Diop ainda, no início da década de 1960, criou um partido da oposição, o Bloc des Masses Sénégalaises (BMS). Em 1962, Diop chegou a ficar preso por um mês por conta desse partido da oposição. Os dominantes não deixaram com que o partido se mantivesse e deram fim nele em 1963, sendo declarado como ilegal. Mas o BMS não se deu por vencido e criou um partido novamente e, mais uma vez, o segundo foi dissolvido pelo então presidente da época, Leopold Sedar Senghor.

Cheikh Anta Diop foi uma personalidade de grande influência sobre o pensamento africano no século XX, recebendo um prêmio em razão disso. Para quem conhece ou já ouviu falar da coleção História Geral da África, da UNESCO, poderá conferir o nome de Cheikh Diop no capítulo que fala sobre as origens dos egípcios. Ele conseguiu esse espaço após participar de um debate da UNESCO no Cairo e apresentar suas teorias a outros especialistas em egiptologia.

Mesmo voltado para a carreira acadêmica, Diop não se distanciou da política. Em 1976, mais um partido foi criado por ele, o Rassemblement National Democratique (RND), que também foi declarado ilegal como os outros dois anteriores. Para a sorte de Diop, após quatro anos, em 1980, Leopold Sedar Senghor deixou o poder e o presidente que tomou posse aboliu a lei que proibia a formação de partidos políticos. Neste momento, o RND passou a ser reconhecido legalmente.

Nosso protagonista faleceu em 7 de fevereiro de 1986, foi enterrado em sua aldeia natal, Caytou, junto ao seu avô e fundador da Vila, Massamba Sassoum Diop, o Velho.

 

 

 

 

Turbante, minha coroa

Eu turbante

Há mais de um ano, fiz um post sobre a moda afro no Brasil. No post, comentei algumas das fases que passei em relação ao cabelo e ainda publiquei algumas fotos depois que resolvi assumir meu lindo cabelo black e o uso de turbante. Hoje, não vejo o uso do turbante apenas como algo estético, mas também como forma de resistência e autoestima negra.

O turbante começou a ser usado no Oriente ainda antes do surgimento do islamismo. Ele é também uma tradição africana. Muitas pessoas não conhecem o real motivo do uso dos turbantes. Ele simboliza hierarquia social e espiritual. As suas diferentes formas de amarração são de acordo com as diversas etnias do continente africano e suas posições sociais. Como podem ver, todo costume africano tem seu motivo pra existir. Ainda temos muito o que aprender sobre a África, nossa mãe.

 

Quênia: os cuchitas

Mapa do Quênia

Há vestígios arqueológicos de que as diversas culturas da tradição neolítica (segundo o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, neolítico é a última divisão da Idade da Pedra, caracterizada pelo desenvolvimento da agricultura e a domesticação de animais) pastoril das Savanas da África Oriental tenham sido dadas pelos falantes das primeiras línguas cuchíticas do Sul. O trabalho pastoril na época era focado na criação de bovinos. Segundo dados arqueológicos, ainda em aberto, pode ter ocorrido também o cultivo de cereais.

Os povos Dahalo ficavam ao longo do Rio Tana e em parte da região mais próxima ao Quênia. Os cultivadores se estabeleceram ao longo do Tana. Além deles, ainda havia grupos dos pokomo e os elwana de língua banta. Na atual região de Witu ficava a comunidade dos caçadores-coletores. Esses adotaram a língua dahalo, deixando de lado o uso total da antiga língua que usavam, a khoisan. Mas mesmo ocorrendo essa substituição linguística, alguns termos da língua dahalo permaneceram em uso, como as consoantes estalantes. Mais no interior, os cuchitas dominavam. Uma de suas sociedades tem a tradição conservada apenas de maneira oral sob o nome de Mbisha; ela vivia nos montes Taita. O dialeto “asa antigo” foi usado por comunidades mais velhas na região do Kilimanjaro e, rumo ao sul, até a estepe massai.

Rio Tana Quênia

Rio Tana, o maior rio do Quênia

The Tana is Kenya's longest river (Pic- Ron Geatz TNC)

Rio Tana. Photo: Ron Geatz/TNC

Montes Taita

Montes Taita

Havia, entre os cuchitas meridionais, dois grupos que tinham bastante proximidade com os antigos Kw’adza e Iringa; eles ocupavam parte do centro da atual República Unida da Tanzânia.

Tanzania

No século VII, muitos cuchitas meridionais do Rift viviam em uma economia essencialmente pastoril.  Já outros grupos que estavam principalmente em torno do Kilimanjaro, nos montes Taita e nas margens do Vale do Rift, tinham consolidado a economia no cultivo. Nessa época, outras comunidades pertencentes aos cuchitas falavam a língua mbuguan. Dessa língua há dois grupos: um é dos cuchitas Kirinyaga, que parecem ter precedido os bantos no Monte Quênia; provavelmente o povo conhecido como Gumba nas tradições modernas da região. Nele, havia tanto caçadores-coletores como cultivadores. O segundo grupo era constituído pelos antigos ma’a, concentrado no nordeste da Tanzânia, provavelmente a leste dos antigos asa e a sul do Pangani, em certas partes da bacia superior do Wami. As tradições orais dos atuais ma’a mantêm a lembrança de quando chegaram à região através do Quênia. É provável que eles ligaram sua história recente a uma tradição autêntica, porém bastante antiga, com a qual concordam os dados linguísticos. Eles fazem remontar sua emigração a partir do norte e com data muito anterior ao século VII.

Kilimanjaro

Kilimanjaro

Mount_Kenya - Wikipedia

Monte Quênia

Wami_River_2012

Rio Wami

Fonte: História Geral da África – volume III – pág. 722, 723 e 725

 

 

Casamento Bailundo

Como em todas as culturas existentes no mundo, é normal que existam rituais do casamento para cada uma. Em Huambo esses costumes também se fazem fundamentais para a cultura local. E o hoje este post será dedicado a apresentar os traços do casamento no Bailundo, um dos onze municípios da província do Huambo.

Nessa região, o sistema de parentesco que predomina é o matrilinear, quando o sistema de organização social, filiação só é levado em consideração por meio da ascendência materna. O papel de pai fica na responsabilidade do tio ou da tia maternos, ou seja, irmãos da mãe. Então, quando o sobrinho/sobrinha vão se casar, eles quem faz todo o trâmite para que o casamento aconteça. Além dessa tarefa dos tios, cabe a eles também entregar os sobrinhos para a sua iniciação sexual (okukolisa, em Umbundu).  No caso dos meninos, a iniciação sexual fica a cargo das primas da mãe, pois elas também são consideradas e tratadas pelos sobrinhos como mães.

A combinação do casamento pode começar já mesmo na infância e em algumas situações ainda na gestação. As famílias podem fazer os acordos dos casamentos. Feito isso, a família do rapaz deve entregar bens à família da noiva. Esse dote varia de acordo com o que a família possui de maior riqueza. Se for gado, entrega-se gado; se for milho, entrega-se milho, etc. Em Umbundo, noivado é okuvala, que significa ocupar, literalmente. Depois que a família do noivo entrega seus bens à família da noiva, então dá início ao noivado. Repito, mesmo se os noivos ainda são criança ou na gestação. É como se eles fossem prometidos um ao outro.

Mesmo acontecendo essas combinações entre as famílias, quando as crianças crescem pode acontecer de elas não quererem seguir aquilo que lhes foi determinado desde a infância. A consequência dessa negação é serem isoladas pelos membros da própria família. Nessas ocasiões, é normal que os mais velhos façam ameaças dizendo que já que não querem se casar com quem lhes foi arranjado, então o jovem terá que conviver sozinho com seus problemas, porque quem quer a pele de um animal, deve aceitar os piolhos (olona). A expressão que usam em Umdundo é atchi walinolehã otcho tchove OU walikuminhã otchipa, lolona viatcho wuambata. Obviamente que acabam aceitando o casamento arranjado.

Quando os jovens se escolhem entre si

Mas como há sempre exceções em todas as regras, o normal é os jovens se escolherem entre si. Neste caso, o rapaz precisa comunicar seu tio materno sobre seu interesse em se casar com determinada moça, pois este quem fará a avaliação sobre a família da moça. Após esta avaliação é que o tio decide se vai ou não casar o seu sobrinho. O dito popular em Umbundo é nda okwela, pula, pula (literalmente, se queres casar, pergunte ou procure aconselhamento). Se for para acontecer o casamento, este tio avisa o restante da família e inicia o contato com a família da moça.

Cada fase desse contato até o casamento há um ritual específico. Então, as famílias, ao terem o primeiro contato, o tio do rapaz leva um litro de primeira de kaporroto para oferecer ao pai da futura noiva. Este momento deve ser presenciado obrigatoriamente por um tio materno dela, pois cabe a ele autorizar ou não o casamento da sobrinha. Portanto, se algum tio dela não estiver, esse encontro deve ser repetido em outra ocasião.

Quando a comitiva visitante chega à casa dos pais da suposta futura noiva, os anfitriões seguem um ritual de recepção usando palavras em Umundo:

Akombe veia (sejam bem-vindos ou as visitas chegaram)

Responde o tio do rapaz:

Haka, tchakale ukombe nda hakwenda limo (seríamos bem-vindos, se não fosse a preocupação que nos trás)

Antes de perguntar qual é o problema ou a preocupação, o dono da casa convida os visitantes a entrar e oferece-lhes assentos, dizendo:

Komangohoko?

As visitas se sentam e batendo ligeiras palmas, responde o tio do rapaz:

Kuku (espécie de agradecimento) e acrescenta – Tchisanda mango.

Já todos acomodados, segue-se a fase dos depoimentos (ulando), que é aberta com uma pergunta do dono da casa:

Ulando owo? (Qual é a situação? O que se passa?)

Até que o tio do rapaz fale o real motivo pelo qual está lá, eles conversam sobre vários assuntos como forma de introdução ao principal: o casamento. Normalmente, o tio da moça dá consentimento para o casamento. A combinação é confirmada a partir do momento que se define a data e pela determinação dos bens (ilembo) que a família do pretendente deve entregar à família da futura esposa.

Chegado o dia do casamento, a família do rapaz dirige-se para a casa da moça com os bens exigidos pela família dela. A cerimônia começa com a apresentação desses bens.

Se a moça já tem filho de outro homem

Nessas situações, os bens são bem menores, pois a família de uma mãe solteira evita exigir tanta coisa já que é difícil casar uma filha que tem filho de outro homem. Os noivos estando de acordo com o casamento, faz-se a apresentação e entrega dos bens exigidos. O ritual acontece com a entrega de um garrafão com walende à noiva, que serve uma pequena quantidade num copo, dá um gole e no mesmo copo serve ao noivo. Isso é um sim. E então vêm as comemorações.

Assim como nos casamentos europeizados que os noivos trocam alianças, no Bailundo é tradição que o noivo entregue à noiva uma pulseira para simbolizar a união e aviso a todos de que aquela mulher agora é comprometida. Em Umbundo, essa pulseira se chama omota.

No banquete, cada membro da família do noivo deve deixar debaixo do prato e copo uma quantia em dinheiro. Se isso não acontecer, ao se retirarem para suas casas, encontram um lençol na porta no qual deverão deixar cair algum valor. Esse dinheiro é como um pagamento para quem preparou o almoço.

Se de imediato ou em momento posterior, a entrada da mulher na casa do marido é momento especial, há uma cerimônia própria, chamada de ekwatisa epata em Umbundo. São três momentos distintos para essa cerimônia: mostram-se os bens que a mulher leva, pois o regime econômico do casamento é o de separação de bens; apresentam-se as pessoas que estão presentes e por último uma das tias maternas da moça ensina-a a fazer o pirão para distribuir a carne. Esse ato de ensinar a sobrinha a fazer o pirão determina também o seu grau de educação.

Quando a família da moça afirma que ela é virgem, as tias do noivo é quem confirmam colocando um lençol na cama onde será a primeira noite deles. Comprava-se a virgindade pelas manchas de sangue no lençol. Se não for provado que ela é virgem, a sua família é obrigada a pagar uma espécie de multa à família do noivo e ainda pode ser desprezada e rejeitada.

 

 

 

As mulheres podem tudo comprometer, elas podem tudo arranjar

Lendo o primeiro volume da coleção História Geral da África, eu me deparei com um trecho do subtítulo “Os africanos têm consciência de ser os agentes de sua história?” sobre a presença da mulher na história africana que me agradou bastante e quero compartilhar.

“…, ao contrário do que se tem dito e repetido à saciedade, (as mulheres) ocupam na consciência história africana uma posição sem dúvida mais importante que em qualquer outro lugar. Nas sociedades de regime matrilinear isto é facilmente compreensível. Em Uanzarba, perto de Tera (Níger), onde a sucessão na chefia era matrilinear, durante o período colonial os franceses, no intuito de reunir os habitantes dessa aldeia aos de outras aldeias songhai, haviam nomeado um homem para comandar essa aglomeração. Mas os Sonianke não deixaram de conservar sua kassey (sacerdotisa), que continua até hoje a assumir a responsabilidade do poder espiritual. Também em outros lugares as mulheres são vistas como protagonistas na evolução histórica dos povos. Filhas, irmãs, esposas e mães de reis, como essa admirável Luedji, que foi tudo isso sucessivamente e mereceu o título de Swana Mulunda (mãe do povo Lunda), ocupavam posições que lhes permitiram influir nos acontecimentos. A célebre Amina, que, na região haussa, no século XV, conquistou para Zaria tantas terras e aldeias que ainda levam o seu nome, é apenas um exemplo, entre milhares, da ideia de autoridade histórica que as mulheres impuseram às sociedades africanas. Esta ideia permanece viva até hoje na África, na atuação das mulheres na guerra da Argélia e nos partidos políticos durante a luta nacionalista pela independência ao sul do Saara. É claro que a mulher africana é utilizada também como objeto de prazer e decoração , como nos sugerem as que são mostradas envoltas em tecidos de exportação ao redor do rei do Daomé ao presidir uma festa tradicional. Mas do mesmo espetáculo participavam as amazonas, ponta de lança das tropas reais contra Oyo e os invasores colonialistas na batalha de Cana (1892). Pela sua participação eno trabalho da terra, no artesanato e no comércio, pela sua ascendência sobre os filhos, sejam eles príncipes ou plebeus, por sua vitalidade cultural, as mulheres africanas sempre foram consideradas personagens eminentes da história dos povos. Houve e ainda há batalhas para ou pelas mulheres. Porque as próprias mulheres muitas vezes desempenharam o papel de traidoras ou sedutoras. Como no caso da irmã de Sundiata ou das mulheres enviadas pelo rei de Segu Da Monzon às bases inimidas. Apesar de sofrer uma segregação aparente nas reuniões públicas, todos sabem na África que a mulheres está onipresente na evolução. A mulher é vida. E também a promessa de expansão da vida. E através dela que os diferentes clãs consagram suas alianças. Pouco loquaz em público, ela faz e desfaz os acontecimentos no sigilo do seu lar. E a opinião pública formula este ponto de vista no provérbio: “As mulheres podem tudo comprometer, elas podem tudo arranjar”.

Trecho do Volume I – Metodologia e pré-história da África (Comitê Científico Internacional da UNESCO para Redação da História Geral da África) – pág. 29

 

Significados:

Matrilinear – Diz-se do sistema de filiação e de organização social no qual só a ascendência materna é levada em conta para a transmissão do nome, dos privilégios, da condição de pertencer a um clã ou a uma classe. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa

Sonianke – Neste cã, o poder se transmite “pelo leite”, ainda que se admita que o laço de sangue contribua para reforça-lo. Entre os Cerko, porém, é unicamente através do leite que o poder é transmitido.

 

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