Tchokwe – uso das máscaras – Parte 1

O post de hoje é sobre o costume do uso de máscara do povo Tchokwe. Eles ficam no que hoje chamamos Angola e República Democrática do Congo. Há uma frase bastante interessante que nos faz pensar sobre a importância de apreciarmos com responsabilidade a arte africana: A expressão artística africana sempre tem como foco a busca da essência africana nas coisas. As peças sempre têm intenção de levar à reflexão sobre a valorização do mundo. Pra quem aprecia as peças artísticas africanas é vital ter a sensibilidade do infinito para entender as mensagens subliminares nelas. Portanto, para o artista dessas peças é preferível que o apreciador contemple somente a beleza a grosso modo, caso essa pessoa tenha dificuldade de compreender exatamente o que ele quis expressar nela. E a África é assim mesmo: o espiritual contido em sua cultura, em tudo que é feito por lá é o que a torna tão especial, tão singular.

É importante destacar, antes de estendermos a conversa, sobre a divisão da África. O que hoje existem como países é bastante recente. Os Europeus invadiram o continente fez toda a dominação mental e territorial que existe hoje. A oficialização da divisão de terras aconteceu em 1885 na Conferência de Berlim realizada para este fim: dividir o território africano em países como estão hoje e cada invasor ficar com suas terras. Nojento isso? Muito! 

Antes de tudo isso acontecer, o continente africano era habitado por povos, reinos, impérios delimitados fisicamente entre os irmãos africanos da época. Então, vocês que ainda não sabem sobre isso é importante guardar essa informação porque nos próximos vídeos que saírem sobre povos pode ser que eu fale que determinado povo (etnia na linguagem ocidental) esteja localizado em mais de um país. Isso acontece por causa dessa divisão que os invasores fizeram, e acabou dividindo alguns povos fisicamente. Por exemplo: o povo Tchokwe está localizado no que hoje chamamos de Angola e República Democrática do Congo; pode ser que estejam em outros lugares também. Então, quem souber pode comentar aqui porque informação para agregar é sempre bem-vinda. Outro exemplo é o povo Bakongo; eles estão localizados onde chamamos Angola e República Democrática do Congo. Mas não aconteceu com todos os povos essa divisão física, alguns se mantêm totalmente no que hoje chamamos de país.

Mas, independentemente disso, essa é a mãe-África; sempre profunda como mãe. Afinal, mãe é vista por todos nós como a pessoa que possui sabedoria além do que é visível aos olhos humanos.

Na arte africana, os artistas sempre procuram expressar diversos pilares. Por isso, a importância de conhecer sobre a cultura africana, pois não dá pra comparar a qualquer outra cultura do mundo, ela é única. Entre esses pilares estão a espiritualidade, a política, a sociedade, ambiental. No pilar da espiritualidade, cada povo expressa à sua maneira. Em África existem centenas de povos, e pode ter vários povos com culturas diferentes no mesmo país. O social é expresso pelos rituais, como a fase da mudança de ciclo da infância para a maioridade. O ambiental é representado pela celebração da colheita e estação de caça e pesca. O pilar da política é expresso por fotos e adereços de reis; tudo que é relacionado à hierarquia representa esse pilar. 

Hoje, daremos início ao assunto sobre as máscaras. O uso delas tem um significado muito importante para o povo Tchokwe, não é um uso estético. Elas são usadas para a transição dos meninos para a maioridade, momento bastante importante para eles e todos que vivem na aldeia.

Vou apresentar para vocês algumas máscaras e no próximo post eu falo um pouco mais sobre como acontece esse momento tão especial na vida deles.

 Mapa de Angola 1970
Máscara Masculina Tchokwe República Democrática do Congo

Há muito tempo, essa máscara era conhecida como Pwo (mulher). A mulher era considerada um modelo perfeito de maturidade, sabedoria e experiência. Com o passar do tempo, houve a necessidade de adaptação aos novos modelos sociais e, agora, essa máscara é conhecida como Mwana-Pwo (jovem mulher ou rapariga); lembrando que o termo rapariga não tem o mesmo sentido entre o português europeu e brasileiros. Mesmo com os novos padrões que a sociedade está vivenciando, a figura feminina continua com seu poder de validar ou criticar o que for do comportamento da sociedade tradicional desse povo. Como acontece tradicionalmente na grande maioria dos povos bantu, as máscaras são usadas em momentos de evocação e contato com os antepassados entre homens, um culto aos ancestrais. Por isso, Mwana-Pwo é fundamental na vida dos nossos irmãos que são desse povo, pois eles a têm como guia para educar e orientar todos.

A associação que fazem dela é uma cerimônia de iniciação masculina. Quando meninos jovens estão em transição da infância para a puberdade, eles são separados de suas mães. Seu uso acontece no terreiro em forma de dança para entreter a comunidade e celebrar essa passagem que os meninos estão passando. E, por ser uma máscara feminina, ela exerce o poder de crítica comentado anteriormente.

As máscaras são feitas com traços femininos pelo artista e que ele mesmo escolhe de qual mulher será ou como será, só não pode fugir dos traços que fazem parte do padrão estético da escultura deles. Nesse rosto, o escultor procura retratar das complexas representações, simbolismos até a fecundidade. A maneira que o bailarino se apresenta quando está com a máscara – sim, o bailarino – exige uma forma singular para transparecer a elegância feminina, fazendo movimentos mínimos para valorizar os movimentos da parte da cintura por conta da ênfase que precisa dar ao cinto característico da dança ciyanda. Para o povo da aldeia é fundamental que as qualidades femininas consideradas pelos Tchokwe perpetuem: delicadeza nas atitudes, fertilidade, beleza, força da juventude.

Bailarinos prontos para a cerimônia
Máscara Mwana-Pwo

Se você ainda não conhece nosso canal Coração Africano no Youtube, deixo aqui o link para que você possa estar com a gente por lá também. Não se esqueça de se inscrever, acionar o cininho e dar aquele joínha.

Até a próxima!

Por que dei nomes africanos aos meus filhos

Todos nós sabemos que uma das melhores maneira de dominar alguém, um povo ou um grupo é através da mente. Se a gente conseguir entrar na mente do grupo, dessas pessoas, é praticamente 100% de poder que temos sobre ela. E foi isso que acontecendo com a nossa perda de identidade durante a escravidão no Brasil. Existe um reflexo muito grave sobre identidade em todos os sentidos, foi um genocídio, apagaram pela mente, pela memória. O genocídio não é somente através de tiro, de bala. E esse apagamento de identidade foi o que os europeus fizeram quando sequestraram os nossos antepassados para serem escravizados no Brasil. Eles enriqueceram dessa forma. Mesmo tendo acontecido tudo isso, a gente precisa agora resgatar a nossa identidade. O Brasil vende sua imagem como se todos vivessem bem, a maioria da população autodeclarada negra, mas é um país racista. Isso não tem congruência. Então é urgente resgatarmos nossa identidade, centralizar nossa vida, nosso pensamento nas nossas origens. Cada pessoa tem seu ritmo. Existem muitas maneiras de fazer isso: roupas, estudos, comportamento.

O post de hoje fala sobre o resgate através dos nomes. Nomes são palavras e palavras têm força. Então, o nome tem uma força. A todo momento a gente está chamando aquela pessoa por aquela palavra, aquele nome. As características do nome serão inseridas na formação da personalidade daquela pessoa, é como um mantra. Não sei vocês já tiveram momentos de olhar para alguém e pensar que ela combina com o nome que tem ou que não combina com o nome que tem. É isso! A pessoa acaba se parecendo, vamos dizer, com as características que compõem aquele nome.

Dentre os itens que tem no conjunto de identidade é o nome, valorizar os nomes das nossas origens. Em vez de valorizamos os nomes dos europeus, dos orientais, de outros povos, vamos valorizar o que é nosso. Não há problema algum nisso. O problema está sim nas críticas que recebemos quando valorizamos nossa cultura africana, mas nenhum outro povo é questionado como a gente. Por quê?

Eu, Gláucia, sempre tive interesse em saber os significados dos nomes. Quando comecei a voltar minha atenção para os estudos africanos, logo decidi que quando tivesse filhos, seus nomes seriam africanos. Eu escolhi Lueji por causa de uma novela angolana, mas obviamente que antes de colocar o nome somente porque gostava, eu busquei seu significado. Minha filha se chama Lueji Nyota, também buscamos o significado de Nyota. O nome do Béenesha também, a gente buscou o significado. Temos que escolher com bastante cuidado porque um nome não se troca como roupa, é algo muito importante e sempre vamos querer o melhor para os nossos filhos. Confesso que nunca vi significado ruim de nome, mas quanto mais critérios termos, melhor. Como é difícil mudar nome, se conseguirmos dar sobrenome, OK, um passo por vez. Porém, hoje em dia, há muitxs irmãos e irmãs que usam socialmente nomes africanos e não há problema algum nisso.

O importante é buscarmos nossa ancestralidade. Dá pra começar por diversos caminhos: estética, moda, nomes, estudos. Cada pessoa tem seu processo.

Quem quiser assistir ao vídeo desse mesmo tema, acesso o canal Coração Africano!

Crise de identidade: uma reflexão no contexto diáspora Brasil

Dia 9 de agosto, fizemos uma live com o intuito de refletirmos sobre a crise de identidade no Brasil. Para essa reflexão, convidei o Kamanda porque ele tem muitas coisas interessantes para nos falar sobre esse assunto.

O assunto é importante para falarmos não somente no Brasil, mas para todos nós pretos do mundo, seja quem nasceu no continente africano ou na diáspora. Em primeiro lugar, precisamos definir o que é a identidade, isso é muito importante. A identidade é um conjunto de características dos valores espirituais, culturais; os valores sagrados para um povo, por exemplo. São essas características que formam a identidade de um povo. Essa questão dos valores envolve nós como povo. Isso é globalmente.

Por meio das participações que teve em atividades raciais no Brasil, o Kamanda pode ver bastante sobre a questão identitária. O Brasil conheceu um processo muito diferente dos outros povos em relação à escravidão, existe uma crise, como no continente. A crise se manifestou quando o indivíduo foi levado à força pra algum lugar, deram pra ele trabalhos forçados, tiraram a cultura dele, tiraram todos os valores dele. Os proprietários deram seus nomes aos escravos, assim a pessoa começa a perder seus valores, suas raízes, assim começa o processo de apagamento. Ao longo do processo, existe uma agenda. Na história do Brasil, lá no início dos anos 1900, foi criada uma agenda política para o apagamento total da identidade, da cultura, dos valores do povo preto. Comparando aos europeus, eles mantêm seus valores, seus nomes, religiões etc. Mas o povo que foi escravizado perdeu toda a sua origem, nem dá pra saber de qual parte da África o escravizado é. Hoje o povo não sabe nenhum traço de qual parte do continente africano eram seus antepassados. Por exemplo, nos Estados Unidos, os japoneses americanos mantêm tudo que é da sua própria cultura, os chineses também. Inclusive há um bairro em Washington, DC que se chama Chinatown, que é todo configurado em chinês, no coração da capital dos EUA. Esse exemplo nos permite continuar o raciocínio no caso dos nossos irmãos tanto nos EUA quanto no Brasil. Diferentemente de outros povos, os nossos irmãos dão nomes europeus aos seus filhos. Outro exemplo de perda de identidade também é um africano nascido no continente, na aldeia, e não saber a língua do seu povo, mas se orgulhar por fala a língua do europeu.

Existem outras coisas também, como as práticas, as tradições. Exemplo, a espiritualidade, pois a religião foram os europeus que impuseram. Aliás, outra coisa que eles fizeram em África foi dividir o continente nos países existentes hoje. Essa conferência para a divisão aconteceu em 1885. Antes disso, o continente era separado por povos. Por isso que hoje, por exemplos os Bakongos estão em mais de um país. E como o povo Bakongo hoje está dividido, isso faz com que se chegue ao objetivo da colonização, que é a discriminação entre si. Um povo que se desentende entre si fica desestruturado. Entendem o porquê de a supremacia branca sempre querer dividir o povo preto?

Então, o que aconteceu no Brasil é que após a escravidão foi criada a política do embranquecimento. Foi uma agenda política de apagamento da identidade do povo africano. Com outros povos é diferente. Quem é descendente de japonês, chinês, alemão etc. tem orgulho de autodeclarar descendentes. E nós deveríamos ter não só orgulho de autodeclararmos africanos, mas também uma responsabilidade com nosso povo; mesmo quem nasceu na diáspora. Uma maneira de se reconhecer como tal e não estamos acostumados no Brasil é isso. Podemos ter exemplos de pretos que nasceram em outro país, mas se definem como africanos. Por quê? Porque eles têm identidade, eles sabem e reconhecem sua descendência. Mas isso se explica pela forma brutal como o projeto foi realizado no Brasil, um país onde a maioria da população que foi drasticamente violentada e ainda consegue conviver bem com seu inimigo, com quem te maltratou. Isso é questionado pelos pretos estrangeiros, inclusive. Infelizmente, essa política do embranquecimento deixou uma marca muito forte. Se uma pessoa é filha de casal interracial, a tendência é ela escolher o lado branco porque, no Brasil, quando se declara branco automaticamente a pessoa tem privilégios. Política genocida.

Esse projeto, essa política no Brasil tinha a intenção de que o Brasil estivesse branco até 2012. Não teve sucesso, mas conseguiram intensificar a miscigenação. Quanto mais perto do tom de pelo do branco, mais privilégio você terá. E isso dá uma confusão de identidade na pessoa. A gente entende que esse problema no Brasil é inevitável de acontecer. Cada pessoa tem seu tempo de reconhecer isso, sua identidade. Não é nem questão de tom da pele, de ser mais claro ou retinto, é de se reconhecer de tal povo. Na África mesmo, existem povos com tons de pele mais claro e mais escuro. Portanto, a intenção dessa conversa é levar os irmãos e irmãs à reflexão sobre sua identidade. É um assunto extenso, então aqui só foi plantada a sementinha.

Para quem quiser assistir à live completa, acesse aqui.

Como me reconheci africana Dia da mulher africana

Hoje, 31 de julho, comemoramos o Dia da Mulher Africana. E pra celebrar, quero falar sobre o meu processo de reconhecer minha descendência africana. Esse despertar foi fundamental para mim porque consegui ressignificar de forma legítima o meu estar nesse mundo.

Tudo começou com a mudança de cabelo. Comecei a alisá-lo por volta dos 10 anos de idade. Era a partir dessa idade que ouvíamos a mãe falar que seria a hora de alisar o cabelo, como se fosse uma obrigação. Inconscientemente, até acho que sentíamos essa obrigação. Quando decidi mudar eu já estava bem mais velha, há 8 anos. Comecei pelo cabelo mais por questão de estética. Usei tranças por quase 3 anos até que toda a parte lisa se acabou. Ao parar de usar tranças, veio a pergunta: E agora, o que faço? Sem pensar muito decidi assumir o black power. No início, confesso, não foi fácil, afinal a gente cresce aprendendo a odiar nossas características naturais. Mas com o tempo, eu fui amando e me apaixonando por mim mesma. E sabe quando isso aconteceu de fato? Quando tive um insight para ler sobre a África. Esse insgith veio porque um grande amigo se mudou para um país africano a trabalho. E aí veio na minha mente: Peraí, África? Como se vivem em África já que tem tanta pobreza? Acredito que muita gente irá se identificar com esse meu pensamento porque é o que a mídia nos mostra sobre o continente-mãe, não é mesmo? Foi então que resolvi pesquisar pela internet mesmo. Comecei a olhar as roupas africanas e aquilo foi me fazendo querer saber mais e mais.

Na mesma época, eu estava cursando especialização em Linguística com ênfase em Revisão de Textos. E o meu TCC seria no formato artigo científico. Vocês podem estranhar, mas eu gostava de ler a origem das palavras no dicionário, e foi aí que percebi que na língua portuguesa do Brasil nós temos muitas palavras de origem africana. A intuição mais uma vez me mostrando o caminho. Pronto. Fiz meu artigo sobre a influência das línguas africanas no português do Brasil. Admito que hoje em dia ao lê-lo percebo um discurso bastante ocidental, mas me perdoo porque eu estava começando a ter contato com minha terra e ainda não tinha essa compreensão de que o Ocidente é perverso no discurso sobre a África.

Depois, passei a procurar tecidos e fazer roupas, até que meu guarda-roupa ficou mais da metade com tecidos africanos. Eu me sentia outra pessoa, me sentia plena, o desejo de me encaixar em estereótipos que não me perteciam cessou, afinal eu encontrei o meu de verdade, e AMEI. A partir daí minha vida começou a girar em torno da África. Qualquer coisa que eu faça eu tento centralizar África: nome dos filhos, como resolver tal situação, qual música escutar, etc. E quanto mais a gente se insere, mais queremos estar conectados às nossas origens.

Eu penso que a gente não se torna africana(o), nós recordamos e nos reencontramos. A África não é só uma roupa bonita e uma música gostosa de dançar. Tornar-se africana é trabalhar a mente também. Pensar África envolve adotar hábitos no dia a dia, maneiras de lidar com as situações que a vida nos apresenta, centralizar a África na nossa vida. Mesmo eu me considerando africana, ainda tenho um longo caminho a percorrer. Ser criada no continente e ser criada fora dele são realidades totalmente diferentes. Crescer no continente e com os ensinamentos tradicionais africanos eu classifico como privilégio porque nós da diáspora Brasil tivemos toda a nossa história apagada, e fazer esse resgate sozinho é extremamente trabalhoso porque não sabemos nada.

África é cultura. África é sabedoria. África é descoberta. África é espiritualidade. É um lugar ímpar. É muito importante que todos nós, pretos, reconheçamos nossa origem africana porque qualquer coisa que o Ocidente cria não nos pertence, não é pensando para nós, a não ser se for para business, para eles ganharem dinheiro em cima das nossas pautas. Portanto, vamos assumir com amor nossas características naturais africanas, nossa cultura, vamos saber mais como é a espiritualidade africana. As outras sociedades fazem isso também, é direito de todas. O problema está quando um descendente judeu, asiático, europeu, indiano segue a cultura dos seus ancestrais, eles são exaltados. Mas quando é um descendente africano que faz isso, ele é minimizado; muitos pretos têm vergonha de serem pretos e têm pavor de assumir sua descendência africana. Sabe por que isso? Porque o ocidente nos ensinou que tudo que vem da África é negativo. Mas eu acredito que sempre é tempo para o resgate, cada um tem seu momento.

Vamos exaltar nosso continente que nos deu a vida! VIVA ÁFRICA!

Dra. Marimba Ani: Sexualidade Africana

Depois de tanto tempo em stand by, o blog Coração Africano vai voltar a compartilhar o que aprende sobre africanidade e está aberto a sugestões para tema. Na seção ABOUT tem o endereço de e-mail para contato.

E essa volta será registrada através de um post com poucas palavras minhas, mas com bastante reflexão trazida pela Mama Marimba Ani no vídeo a seguir.

Eu ouvi falar dela há poucos meses através de um irmão panafricanista. O nome dela ficou na minha mente. A Drª Marimba Ani é Antropóloga Africano-Centrada, autora de Yururgu, Let The Circle Be Unbroken, dentre tantas outras obras importantes para o povo preto. Este vídeo abaixo é o meu primeiro contato com seu material, fiquei bastante pensativa com tudo que ela disse sobre a sexualidade africana.

Marimba Ani inicia sua fala numa palestra saudando todos em línguas africanas. Ela justifica que nos cumprimentarmos na língua dos nossos ancestrais é importante porque somos uma família e estamos nos reconectando. O tema será exposto por ela por meio de um olhar espiritual, cultural e política. A palestra decorre sobre como nossos ancestrais tinha uma maneira bastante sofisticada de lidar com a sexualidade. Então, ela fala como nós nos perdemos nessa questão após o MAAFA (desconexão do modelo de civilização africana) e nos levará para a compreensão através da estabilização do contexto de M´AAT, que é o equilíbrio na visão africana.

Para assistir ao vídeo, CLIQUE AQUI!

Boa Palestra!

A Importância da África para a História do Brasil / L’importance de L´Afrique Dans L’Histoire Du Brésil

Olá, pessoal. Reconheço que ando em falta com o blog Coração Africano. Em razão de assuntos pessoais, acabei me afastando um pouco das publicações, mas agora tudo está se alinhando e conseguirei retomar ao compartilhamento do que aprendo aqui neste espaço.

O retorno ficará registrado com uma novidade que, para mim, Gláucia, é muito gratificante: meu artigo publicado numa revista de História de Fortaleza, Brasil. O resumo do texto está logo abaixo, para acessar o material completo, CLIQUE AQUI. Até breve.

A IMPORTÂNCIA DA ÁFRICA PARA A HISTÓRIA DO BRASIL

Gláucia Quênia Bezerra de Lima

Resumo

Durante muitos séculos, o continente africano foi negligenciado pelos europeus. Eles roubaram toda a herança que a África construiu dentro da cultura, filosofia e ciência tornando hegemônicas essas áreas. É importante que, com a fácil acessibilidade a referências que a tecnologia oferece hoje ao ser humano, os africanos do continente e da diáspora passem a alimentar-se do conhecimento deixado por seus antepassados. A África tem sua própria e rica História, mesmo antes da invenção da escrita. E quando se fala África, é tanto o norte do continente, acima do Saara, como a parte Subsaariana já que muitas pessoas não associam o Egito, por exemplo, como um país africano. Chegou a hora de conhecer a verdadeira história africana pelos próprios africanos e não pelos europeus, que tentaram e conseguiram deturpar totalmente quaisquer informações positivas sobre o continente berço da humanidade. Portanto, este artigo visa a ajudar o leitor a construir seu próprio senso crítico por meio dos autores que defendem a importância da África para a História do Brasil. 

PALAVRAS-CHAVE: História da África; ciência; cultura; diáspora; Afrobetização

L’IMPORTANCE DE L’AFRIQUE DANS L’HISTOIRE DU BRÉSILRÉSUMÉDurant plusieurs siècles, le continent africain a été négligé par les européens. Ils ont volé l’héritage que l’Afrique a construit dans la culture, la philosophie et science, devenant eux-mêmes hégémoniques dans ces secteurs du savoir. Avec l’accès facile aux informations que la technologie offre, il est important que les africains du continent et de la diaspora s’alimentent des connaissances légués par leurs ancêtres. L’Afrique a sa propre riche histoire, avant même l’invention de l’écriture. Et quand il s’agit de l’Afrique, c’est à la fois le maghreb et la partie subsaharienne. L’heure est arrivé de connaître la vraie histoire du continent par les propres africains, car les européens ont tenté de detruire et d’ignorer l’héritage indiscutable du berceau de l’humanité. Cet article vise à aider le lecteur à construire son propre sens critique.

MOTS CLÉS: Histoire de l’Afrique; Histoire du Brésil; Science; Culture; Afrodescendant

Repost 8/6/2018 – O tempo mítico e tempo social na sociedade africana

O homem africano é um ser histórico. E para quem estuda a história africana sabe que grandes obras vieram da capacidade criativa que nossos ancestrais deixaram para nós e usamos até os dias atuais. Tais criatividades estão bem visíveis aos nossos olhos. Para quem não estuda a história africana e tem pouco conhecimento sobre o que veio do continente-mãe é só olhar para as práticas agrárias, receitas de cozinha, medicamentos da farmacopeia, organizações políticas, produções artísticas, celebrações religiosas. Os africanos criaram seus próprios modos de ter uma sociedade, modos de pensamento e de vida. Sendo assim, criaram um modelo de sociedade.
O desenvolvimento de cada sociedade africana é concebido a partir da consciência histórica que os membros de cada sociedade têm de si. O que marca o singular desenvolvimento de cada sociedade em África é exatamente a concepção que os africanos têm de sua própria história. E eles dão valor aos saberes históricos para que suas sociedades sejam condicionadas estreitamente nesses saberes. Boubou Hama e J. Ki-Zerbo, no primeiro volume de História Geral da África, exemplificam essa consciência: “Assim, o rei dos Mossi (Alto Volta) intitulava-se Mogho-Naba, ou seja, rei do mundo, o que ilustra bem a influência das limitações técnicas e materiais sobre a visão que se tem das realidades sociopolíticas”. Eles constatam, através deste exemplo, que o tempo africano é mítico e social às vezes, mas que os africanos sabem que são os responsáveis pela sua própria história. Até aqui percebemos que para nossos irmãos o tempo histórico é muito importante. Muitos de nós, africanos na diáspora e não africanos, que tivemos uma (des)educação ocidental, é um pouco difícil compreender o quão importante é o tempo histórico e o quanto ele influencia em nossas vidas atualmente.
Como já foi mencionado em outras conversas, para quem recebeu (des)educação ocidental a África é apenas um lugar mítico e ligado somente à natureza. Ledo engano. Ainda hoje há pessoas que imaginam que a África vive ‘atrasada’ enquanto o resto do mundo dispara em avanços históricos progredindo fervorosamente. O mito, de fato, é bastante presente no pensamento dos africanos com objetivo de desenrolar as histórias passadas da vida dos povos. Isso é levado tão a sério que pode influenciar nas escolhas e são baseados num modelo mítico que predetermina as ações das autoridades e do povo, é como um costume, faz parte do cotidiano das pessoas.
O tempo tradicional africano une a eternidade em todos os sentidos. O que hoje a (des)educação ocidental determina como moderno, para os africanos tradicionais é inválido porque para eles as gerações passadas são tão importantes quanto às atuais, uma se integra à outra, não existe a separação que a (des)educação ocidental nos ensina de que o antigo não serve para o contemporâneo. E essa integração faz com que os ensinamentos e costumes passados sejam bastantes influentes, se não mais importantes, de quando seus ancestrais viviam. A mecânica é a seguinte: o passado influencia o presente e o presente influencia o futuro. Se formos conversar com irmãos do continente que seguem suas tradições e formos fazer a eles alguma proposta, pode ser bem comum que eles nos respondam que antes de tomarem qualquer decisão vão consultar seus ancestrais. Nós, da diáspora, fomos literalmente roubados da nossa cultura sem qualquer sombra de dúvidas.Os sonhos também são meios de tomar decisões muito significativas para os africanos. Antigamente, existiam funcionários das cortes que eram intérpretes de sonhos; eles tinham um peso considerável sobre a ação política, eram chamados de ministros do futuro. “No fim do século XVII, por exemplo, o rei ruandês Mazimpaka Yuhi III sonhou com homens de tez clara vindos do leste. Armou-se então de arcos e flechas, mas antes de lançar as flechas contra eles, guarneceu-as com bananas maduras. A interpretação desta atitude ambígua, ao mesmo tempo agressiva e acolhedora, introduziu uma imagem privilegiada na consciência coletiva dos ruandeses e talvez contribua para explicar a atitude pouco combativa desse povo, tradicionalmente aguerrido, face às colunas alemãs do século XIX, semelhantes aos pálidos rostos avistados durante o sonho real dois séculos antes.” (Hama & Ki-Zerbo, História Geral da África, volume I).
Podemos ter três exemplos de como o tempo mítico pode tranquilamente ser favorável ao contemporâneo. Além disso, os acontecimentos podem ser obtidos ao grupo e não apenas a um indivíduo: (1) Lenda Gikuyu – essa lenda explica a chegada da técnica de fundição do ferro, um benefício para todos até os dias atuais. Segundo a lenda, Mogai (Deus) distribuiu os animais entre os homens e as mulheres. Mas as mulheres foram bastante cruéis com eles fazendo com que eles se tornassem selvagens. Os homens intercederam junto a Mogai em favor das mulheres dizendo que em honra a Mogai iam sacrificar um carneiro, mas este ato não ocorreria com faca de madeira para não repetirem os riscos das suas mulheres. Essa atitude foi considerada de grande sabedoria por Mogai e por isso ele ensinou os homens a receita da fundição do ferro. (2) O rei Shilluk era um depositário mortal que possuía poder imortal, já que totalizava em si o próprio tempo mítico (Ele encarnou o herói fundador) e o tempo social considerado como fonte de vitalidade do grupo. (3) Assim como com o rei Shilluk, entre os Bafulero (Zaire oriental), os Bunyoro (Uganda) e os Mossi (Alto Volta), o chefe é base de sustentação do povo, do coletivo. O Mwami está presente: o povo vive. O Mwami está ausente: o povo morre. A ausência do rei em decorrência de morte influencia fortemente o dia a dia do seu povo. É como se o tempo parasse as atividades, a ordem social, qualquer expressão de vida (riso, agricultura e até mesmo a união sexual dos animais e das pessoas). Percebe-se, portanto, que o rei não está ali somente para governar como estamos acostumados a ver nas sociedades ocidentais, ele também é fundamental para a questão espiritual do povo que está sob sua responsabilidade. Até que chegue um novo rei para substituí-lo, tudo fica estático. Tudo é onipresente nesse tempo intemporal do pensamento animista, no qual a parte representa e pode significar o todo. Por exemplo, os cabelos e unhas que se impedem de cair nas mãos dos inimigos por medo de que estes tenham poder sobre a pessoa. Ou seja, esses elementos (cabelos e unhas) podem ser fortemente usados pelo inimigo dessa pessoa que os deixou cair porque tem a essência dessa pessoa nos elementos.
Não é tão fácil compreender o significado de tempo para os africanos tradicionais. Veja o trecho a seguir que deixo na íntegra retirado do primeiro volume da coleção História Geral da África, página 27 em PDF e página 83 do arquivo. “De fato, é preciso atingir uma concepção geral do mundo para entender a visão e o significado profundo do tempo entre os africanos. Veremos então que no pensamento tradicional, o tempo perceptível pelos sentidos não passa de um aspecto de um outro tempo vivido por outras dimensões da pessoa. Quando vem a noite e o homem se estende sobre sua esteira ou sua cama para dormir, é o momento que seu duplo escolhe para partir, para percorrer o caminho seguido pelo homem durante o dia, frequentar os lugares que ele frequentou e refazer os gestos e os trabalhos que ele realizou conscientemente durante a vida diurna. É no curso dessas peregrinações que o duplo se choca com as forças do Bem e do Mal, com os bons gênios e com os feiticeiros devoradores de duplos ou cerko (em língua songhai e zarma). É no duplo que reside a personalidade de cada um. O songhai diz que o bya (duplo) de um homem é pesado ou leve, querendo significar que sua personalidade é forte ou frágil: os amuletos têm como finalidade proteger e reforçar o duplo. E o ideal é chegar a confundir‑se com o próprio duplo, a fundir‑se nele até formar uma só entidade, que ascende assim a um grau de sabedoria e de força sobre‑humano. Somente o grande iniciado, o mestre (kortekonynu, zimaa) atinge esse estado em que o tempo e o espaço não constituem mais obstáculos. Era esse o caso de SI, o ancestral epônimo da dinastia: “Assustador é o pai dos SI, o pai dos trovões. Quando ele está com uma cárie, é então que mastiga cascalhos; quando está com conjuntivite, é nesse momento que, resplandecente, acende o fogo. Com seus grandes passos, ele percorre a terra. Ele está em toda parte e em parte alguma”.
Vimos que o tempo mítico e tempo social é fortemente vivo na vida dos nossos irmãos que segue a tradicional forma de vida africana. Mas, leitor, tenha cuidado para não pensar que os africanos só vivem do tempo mítico para justificar o social, pois se assim fosse o mito seria um condutor de uma história imóvel, que ficaria sempre na mesmice. E isso não é verdade. Em nossa próxima conversa, vamos conversar um pouco mais sobre isso de forma que não fique em sua mente que o pensamento africano se baseia apenas no que é mítico.

Fonte: História Geral da África, volume 1 – Capítulo 2 – Autores: Boubou Hama e J. Ki-Zerbo.
Nota: todos os textos deste blog são baseados em fontes dedicadas ao tema. A intenção do Coração Africano é apenas compartilhar o aprendizado que adquiri no dia a dia. O Blog não serve como fonte de pesquisa. Por isso, sempre terá a fonte de onde as informações foram extraídas.

Repost 10/3/2018 – Primeira universidade do mundo nasceu no Mali, África. Madraça (kemetiano) Universidade (ocidental)

Madraça é o nome do local onde aqui no ocidente chamamos de universidade. O termo é  kemetiano. Além de ser um centro de estudos, também é o local onde os muçulmanos fazem suas práticas, a conhecida Mesquita. 
“O que definimos como cultura ocidental é a vivência e educação por base na Filosofia Greco-Romana, Espiritualidade Judaico-Cristã, Modelos político e econômico que está na Revolução Francesa e Industrial”  (NOGUERA, Dr. Renato, 2016 / Tempo no vídeo: 29 min a 1:15:30).

Dentre as diversas valiosas iniciativas de cunho cultural e científico que a África nos ofereceu e oferece está a madraça. A cada descoberta de que algo surgiu no continente africano, me sinto mais orgulhosa e feliz pela nossa riqueza em TODOS os aspectos.
Localizada em Tombouctou (em francês), no Mali, oeste africano, madraça é um centro de estudos. Fica no continente africano, portanto, os três centros de estudos mais antigos do mundo. Sim, do mundo! A famosa Universidade de Tombouctou é composta por essas três mesquitas: Djinguereber, Sidi Yahya e Sankore.

Sidi Yahia mosque, 15th century, Timbuktu, Mali. Photo: MINUSMA/Sophie Ravier

SidiYahya – é uma mesquista e madraça. Mesquista é o local de culto dos seguidores do Islã. Sua construção foi concretizada no ano de 1440. O templo teve seu fim em 2012 com a  Batalha de Gao e Tombouctou.

Djinguereber – Photo: upiernoz

Djinguereber –  também é uma mesquita. Foi construída em 1327. Seu design foi feito especialmente para o imperador do Império do Mali e foi pago em ouro. OURO!

Madraça de Sankore – Wikipedia – Photo KaTeznik

Sankore – Esta mesquita é a mais antiga dos três centros de ensino de Tombouctou. Foi construída em 1300. Sua reconstrução aconteceu em 1581. E pra animar mais ainda, foi uma MULHER que financiou a construção da Mesquita de Sankore. Essa mulher era filha de comerciante. Eles eram tão ricos, mas tão ricos, que ela resolveu investir sua fortuna na construção de uma madraça. Investimento melhor não há, concordam? Investir em conhecimento nunca é demais.

*Todas as referências dos textos deste blog são citados ou como link ou numa relação feita após o fim do texto.

Repost 16/2/2018 – Diop e sua tese sobre a despigmentação da pele – Europeus foram negros

No post Cheikh Anta Diop: o revolucionário do pensamento africano , falamos sobre a origem do homem na África. As dúvidas podem existir talvez em razão de cor da pele que os europeus, asiáticos têm em comparação aos africanos e pessoas que vivem em países com o clima mais quente, por exemplo o Brasil. Então, com base num livro que estou lendo sobre Africanidade, Charles S. Frinch III, um dos escritores da obra, usa seu espaço para falar o que Cheikh Anta Diop comprovou sobre a despigmentação da pele.
No período interglacial, uma parte da população africana migrou para Eurásia colonizando da Espanha até uma parte asiática da Rússia. Essa afirmativa é comprovada cientificamente por meio de estudos em fósseis encontrados nessa região. Porém, depois de algum tempo – falamos aqui de tempo entre cinquenta e quarenta mil anos atrás – os gelos voltaram a tomar conta dessa região para onde os africanos haviam migrado na Eurásia. Por conta do gelo (frio e falta de muita luz solar) é que a pele passou pelo processo de despigmentação.
Se entendermos melhor a funcionalidade da Vitamina D no organismo, entenderemos o porquê de a pele dos africanos situados na Europa terem clareado. Ela tem como função dar força aos ossos. Um organismo que apresenta ausência dessa vitamina tem como resultado o raquitismo nas crianças e osteomalácia nos adultos. Ou seja, os ossos ficam moles e quebradiços. Em nós, mulheres, é mais grave ainda porque se ficarmos com os ossos fracos teremos a pélvis deformada e impossibilitada de realizar o parto normal, por exemplo.
Naquela época, a produção da Vitamina D no organismo só era possível através do contato com raios solares ultravioleta. Ela também é encontrada naturalmente em peixes de água salgada do hemisfério norte. Como mencionado há pouco, os raios solares ultravioleta são os principais meios de absorção dessa vitamina – hoje há outras formas encontradas para tê-las por meio da alimentação não só de peixes. Em nós, africanos (do continente ou da diáspora), tanto naquele tempo como agora, temos um pouco mais de dificuldade de absorver esses raios se estivermos em locais com poucos raios solares; isso se dá em razão da alta quantidade de melanina em nosso corpo, mesmo para quem tem o tom de pele mais claro, os chamados “morenos”. Na África e em outros ambientes quentes, tropicais, a pele negra se beneficiava e se beneficia mesmo para quem tem a pele com bastante melanina porque os raios solares são intensos. Em locais onde as geleiras predominam, como era o caso na Idade Glacial, os africanos que migraram para lá e tinham a pele com muita melanina eram prejudicados, pois lá o sol não era forte, consequentemente os raios não eram suficientes para ultrapassar a melanina da pele. Com isso, naturalmente, a pele das pessoas foi se despigmentando para que pudesse receber a quantidade necessária de Vitamina D através dos raios ultravioletas que não eram tão fortes como em regiões mais ensolaradas. Alguns africanos não permaneceram no local à época e, para resolver a situação, migraram para locais onde o clima era mais quente; outros, que permaneceram na Europa mesmo com esse clima gelado e vivendo em cavernas, foram se despigmentando.
A pele branca absorve melhor os raios solares, então esse problema de ausência de Vitamina D não ocorre para as pessoas com tais características. Além disso, a pele branca aguenta mais o frio do que a pele preta. Isso dá pra perceber no resultado de quando alguém com a pele branca que fica muito tempo exposta ao sol; e com quem tem a pele com mais melanina nada acontece. Segundo Diop, a despigmentação começou com o albinismo na Europa. O albinismo é uma condição que causa ainda bastante preconceito nas pessoas, mas foi através dele que começou o processo de despigmentação da pele dos nossos antepassados que viveram na Europa. Eles formaram a população ancestral aos da raça caucasiana contemporânea. Porém, em África, os albinos não têm muito tempo de vida devido ao clima, já que a pele não tem a quantidade de melanina suficiente para viverem por lá. Concluir-se que toda característica física do negro e do branco está relacionada ao clima ambiental. 

Referências:

– Wikipedia – Vitamina D

– Afrocentricidade – Uma abordagem epistemológica inovadora – Sankofa 4 – organizado por Elisa Larkin Nascimento

Repost 26/1/2018 – A África é importante para a História

A Pré-história e a História da humanidade são divididas entre o antes e o depois da invenção da escrita. Por muitos anos, a África teve sua história ocultada pelos ocidentais porque tinha-se a crença de que para se ter uma história, esta só teria validade se houvesse documentos escritos. Assim, a tradição oral africana era desvalorizada pelos europeus. M’bow, em seu prefácio no Volume I da História Geral da África, escreveu

Se Ilíada e a Odisseia podiam ser devidamente consideradas como fontes essenciais da história da Grécia antiga, em contrapartida, negava-se todo valor à tradição oral africana, essa memória dos povos que fornece, em suas vidas, a trama de tantos acontecimentos marcantes. (M’bow, 2010, pag. 21) 
É inadmissível, inclusive para muitos ignorantes nos dias atuais, aceitar que o continente africano nos forneceu inúmeras práticas que hoje fazem parte do nosso dia a dia, como a escrita, a arquitetura, a matemática, etc., etc. etc. Impossível é listar TUDO que usamos e fazemos e que teve origem no continente africano.

Hoje, estudando mais sobre nosso continente-mãe, é nítido perceber como historiadores ocidentais mutilaram a história da África. A maneira como isso ocorreu foi pela presença de viajantes estrangeiros no continente que acabaram fixando as imagens do que viam da maneira como quiseram. E claro que não foi positivamente. Durante muito tempo, ou até mesmo séculos, essas imagens foram sendo reprojetadas e serviram como justificativas para a visão que o mundo tem hoje do continente africano. Visão distorcida, obviamente. (Ki-Zerbo, 2010).

Nesse contexto, a desastrosa compreensão que se tem da África perdura até hoje. Ainda, muitas pessoas têm uma visão de que o continente é um local, mítico, exótico, que é apenas ligado à natureza; mas sem cultura (cultura da ciência). Existe grande dificuldade em compreender a África por meio da ciência. Acreditar que lá foram criadas inúmeras práticas que até hoje são vistas como criações europeias é um tabu. É importante olharmos para o nosso continente não apenas como cultura, algo como “é opcional fazer isso ou não porque a cultura de determinado local segue quem quer”. Precisamos mudar nosso olhar e vê-lo com mais orgulho e certeza de que África também é Ciência.

É de extrema importância que africanos do continente e africanos da diáspora nos juntemos para propagar nossas riquezas, nossas benfeitorias ao mundo. Isso, não como uma forma de reclamar algo (alguns podem pensar neste sentido), mas penso que propagar e conhecer cada vez mais como forma de autovalorização, autoestima. É gostoso saber que nossos antepassados deixaram legados importantíssimos para a humanidade. Isso nos fortalece também como posicionamento diante de uma sociedade que tenta a todo custo nos oprimir e depreciar nossa imagem por causa da cor da pele. Vamos nos fortalecer sempre.

NÃO, NÓS NÃO VAMOS MAIS PERMITIR QUE OPRESSORES QUEIRAM TOMAR NOSSO LUGAR DE FALA.

Referências:

– História Geral da África, Vol. I: Metodologia e pré-história da África / editado por Joseph Ki‑Zerbo.– 2.ed. rev. – Brasília : UNESCO, 2010. 992 p.

– FABRICIO, Edison Lucas; BRITO, Edilson Pereira. História da África e dos africanos: dos primórdios ao período pré-colonial. Indaial: Uniasselvi, 2012. 128 p.: il

Previous Older Entries