A humanidade nasceu na África. Por que existem povos com a pele clara?

Muitas pessoas se questionam sobre o fato de humanidade ter nascido na África e termos povos com tons de pele claros. Há algum tempo, o blog Coração Africano fez um post sobre isso e, agora, também trouxe este assunto no Canal do Youtube. Para acessar ao post, clique aqui. Para acessar ao vídeo, clique aqui.

Conhece a história dos seus ancestrais?

No post de hoje, venho falar um pouco sobre a importância de conhecermos o continente africano. Mais do que isso, reconhecer o continente africano como nossa raiz. Todo povo procura saber suas origens. Chegou a hora de nós, afrodescendentes, conhecermos as nossas, reconhecermos a África como nossa raiz, nossa cultura e pararmos de tentar encaixe em povo que não nos cabe, orgulharmo-nos das nossas raízes, da África. E, para começar bem o ano, eu, Gláucia, falei sobre esse assunto maravilhoso em um bate-papo bem gostoso com a VOA Português. CLIQUE AQUI, assista à nossa entrevista e depois me conte o que achou.

Feliz 2021 a todos!

Relações familiares na África

por Gláucia Quênia

Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

O papo de hoje é sobre as relações familiares em África e que são muito diferentes do Brasil. 

No Brasil, as nomenclaturas que usamos são mãe, pai, tio, tia, primos de primeiro, segundo, terceiro graus e por aí vai. Eu, Glaucia, já conheci primos de até quinto grau; podem acreditar.

Em África, isso tudo é diferente. Lá, acontece da seguinte maneira: mulheres e homens que têm a partir da idade dos seus pais são chamados de “Maman” e “Papá”. Entre os primos, a consideração é como se fossem irmãos. Consequentemente, os filhos deles são seus sobrinhos. Pensem que lindo fica o tamanho dessas famílias! Em relação aos mais velhos, eu já percebi em situações diretamente com meus pais alguém chamá-los de Maman e Papá. À época, eu não entendi o porquê desse tratamento e pensei que não fazia sentido porque eles são MEUS pais (risos). Mas agora que aprendi esse costume, entendi perfeitamente a pessoa que se referia aos meus pais dessa maneira. Afinal, não precisa também ser somente com pessoas da família. Você pode tratar assim os pais de um amigo, por exemplo.

Essa forma de tratamento me fez refletir sobre como isso é terno, caloroso, afetuoso. Fiquei tão encantada que resolvi adotar com minhas tias que entenderiam esse costume, com primos e primas também. 

E esse post foi feito para convidar você, leitor, a resgatar costumes dos seus ancestrais aos poucos. E esse pode ser o momento para você começar a colocar em prática. Então, compartilhe também com aquele amigo ou amiga que também está em busca do resgate ancestral africano. Mesmo que tenhamos nascido na diáspora, somos africanos. O contexto onde nascemos é, realmente, diferente do continente. Penso que é praticamente impossível resgatar tudo igualmente, mas há costumes que podem, sim, ser inseridos no nosso dia a dia. 

Espero que tenham gostado de mais esse aprendizado sobre cultura africana. Convido-o a visitar nosso canal no YouTube, lembrando que sempre que há texto novo aqui, há vídeo novo do mesmo assunto no canal.

Até breve!

Tchokwe – Circuncisão – Parte 2

Hoje, vamos dar continuidade no uso de máscaras do povo Tchokwe com ênfase na circuncisão dos meninos da aldeia. Para quem não leu o post anterior, Tchokwe – uso das máscaras – Parte 1, eu aconselho a lê-lo para que possa conhecer as outras máscaras usadas pelos Tchokwe.

A cerimônia da circuncisão acontece na aldeia mesmo e os meninos que passam por esse processo precisam ter entre 10 e 14 anos, pois é a idade quando eles encerram o ciclo infantil e vão pra maioridade, puberdade. A partir do momento que decidem o dia da cirurgia, acontece toda uma mudança na rotina dos meninos para que eles possam ir para a MUKANDA (circuncisão). O pré-operatório é marcado por dias bastante ocupados em razão da preparação que é extremamente cuidadosa. Nesses dias, eles aprendem com os mais experientes da aldeia as canções, danças tradicionais, trabalhos artesanais Tchokwe; há mais ensinamentos que eles são orientados e que servem de aprendizado para toda a vida. E não são somente os meninos envolvidos que recebem preparações antes da circuncisão, seus pais também participam de rituais pré-estabelecidos pela aldeia. Portanto, toda a família é envolvida. Na véspera da cirurgia, os meninos são proibidos de realizar quaisquer atividades que possam lesionar seus corpos. Eles não podem entrar na MUKANDA (circuncisão) com nenhum tipo de ferimento.

O GRANDE DIA

Abaixo, vocês podem ver alguns modelos de máscaras usadas durante a cirurgia dos meninos.

Máscara Kalelwa
Kalelwa – Uíge ndemba – máscara para ritual circuncisão
Máscara Kalelwa – Tchokwe da República Democrática do Congo

Ao amanhecer, o chefe da aldeia acompanha os familiares e operadores ao local da cirurgia. Eles rezam aos espíritos pedindo proteção para afastar qualquer mal, qualquer doença e que tudo fique bem. Esse momento da reza é definidos como um agradecimento na língua deles e que é chamado de KUSAKWIA. Os gestos para esse ritual é tocar a terra com a ponta dos dedos e batem palmas falando “NGA BYU”; é uma frase de ação de graça. Após o ritual de abertura para a cirurgia, cada menino segue para o lugar destinado a eles para a operação. Para dar início à operação mesmo, o chefe da aldeia entoa canções seguidos por todos presentes. Então, ele diz: “MUSASWE, MUSASWE!”; o coro responde: “WOHO! MUSASWE.”

Como é exatamente a cirurgia

Com o professor que acompanhou os meninos durante a preparação desse dia, eles se sentam no chão capinado em círculo, as pernas devem ficar abertas. Os professores seguram os ombros dos meninos e a cabeça deles devem ficar virada para o lado para não verem os operadores fazerem o corte, que, aliás, é feito sem anestesia e assepsia. Mas é válido lembrar que existem procedimentos adequados para que não cause infecção, afinal isso é tradição para eles. Pode ser que hoje já possam fazer a cirurgia no hospital. Não sabemos se tem o mesmo valor que tem fazer da maneira original. Na imagem abaixo, vocês podem ter uma ideia da posição que os meninos precisam estar para a realização da cirurgia.

Momento da circuncisão

A cirurgia é finalizada após o processo de estancamento do sangue. Os professores acompanham os meninos durante toda a fase de cicatrização do corte. Além disso, por mais alguns dias fazem o ritual de adoração ao sol.

Além das máscaras já apresentadas, vocês podem ver a seguir mais algumas usadas pelos Tchokwe. Abaixo estão as máscaras chamadas CIKUNGU e CIHONGO, que evocam as imagens da mitologia Lunda-Tchokwe. Nessa tradição, há a princesa Lweji e o príncipe da civilização Tschibinda-Ilunga, que são considerados os personagens principais.

Máscaras de Cikungu e de Cihongo
Máscaras de Cikungu e de Cihongo
Máscaras de Cihongo

Vimos que as máscaras africanas não são usadas para decoração. Elas possuem seus reais e importantes motivos para existirem e sem usadas. Por isso, no post anterior, eu disse que: a expressão artística africana tem como foco a busca da alma da essência humana nas coisas.

Por hoje é só. Compartilhem esse aprendizado de hoje com seus amigos. Vamos propagar a cultura africana, a cultura da nossa origem, dos nossos ancestrais. Esse é o objetivo deste blog e do canal no Youtube. Se você ainda não nos visitou no YOUTUBE, não perca mais tempo e conheça agora mesmo o canal Coração Africano.

Até a próxima!

Tchokwe – uso das máscaras – Parte 1

O post de hoje é sobre o costume do uso de máscara do povo Tchokwe. Eles ficam no que hoje chamamos Angola e República Democrática do Congo. Há uma frase bastante interessante que nos faz pensar sobre a importância de apreciarmos com responsabilidade a arte africana: A expressão artística africana sempre tem como foco a busca da essência africana nas coisas. As peças sempre têm intenção de levar à reflexão sobre a valorização do mundo. Pra quem aprecia as peças artísticas africanas é vital ter a sensibilidade do infinito para entender as mensagens subliminares nelas. Portanto, para o artista dessas peças é preferível que o apreciador contemple somente a beleza a grosso modo, caso essa pessoa tenha dificuldade de compreender exatamente o que ele quis expressar nela. E a África é assim mesmo: o espiritual contido em sua cultura, em tudo que é feito por lá é o que a torna tão especial, tão singular.

É importante destacar, antes de estendermos a conversa, sobre a divisão da África. O que hoje existem como países é bastante recente. Os Europeus invadiram o continente fez toda a dominação mental e territorial que existe hoje. A oficialização da divisão de terras aconteceu em 1885 na Conferência de Berlim realizada para este fim: dividir o território africano em países como estão hoje e cada invasor ficar com suas terras. Nojento isso? Muito! 

Antes de tudo isso acontecer, o continente africano era habitado por povos, reinos, impérios delimitados fisicamente entre os irmãos africanos da época. Então, vocês que ainda não sabem sobre isso é importante guardar essa informação porque nos próximos vídeos que saírem sobre povos pode ser que eu fale que determinado povo (etnia na linguagem ocidental) esteja localizado em mais de um país. Isso acontece por causa dessa divisão que os invasores fizeram, e acabou dividindo alguns povos fisicamente. Por exemplo: o povo Tchokwe está localizado no que hoje chamamos de Angola e República Democrática do Congo; pode ser que estejam em outros lugares também. Então, quem souber pode comentar aqui porque informação para agregar é sempre bem-vinda. Outro exemplo é o povo Bakongo; eles estão localizados onde chamamos Angola e República Democrática do Congo. Mas não aconteceu com todos os povos essa divisão física, alguns se mantêm totalmente no que hoje chamamos de país.

Mas, independentemente disso, essa é a mãe-África; sempre profunda como mãe. Afinal, mãe é vista por todos nós como a pessoa que possui sabedoria além do que é visível aos olhos humanos.

Na arte africana, os artistas sempre procuram expressar diversos pilares. Por isso, a importância de conhecer sobre a cultura africana, pois não dá pra comparar a qualquer outra cultura do mundo, ela é única. Entre esses pilares estão a espiritualidade, a política, a sociedade, ambiental. No pilar da espiritualidade, cada povo expressa à sua maneira. Em África existem centenas de povos, e pode ter vários povos com culturas diferentes no mesmo país. O social é expresso pelos rituais, como a fase da mudança de ciclo da infância para a maioridade. O ambiental é representado pela celebração da colheita e estação de caça e pesca. O pilar da política é expresso por fotos e adereços de reis; tudo que é relacionado à hierarquia representa esse pilar. 

Hoje, daremos início ao assunto sobre as máscaras. O uso delas tem um significado muito importante para o povo Tchokwe, não é um uso estético. Elas são usadas para a transição dos meninos para a maioridade, momento bastante importante para eles e todos que vivem na aldeia.

Vou apresentar para vocês algumas máscaras e no próximo post eu falo um pouco mais sobre como acontece esse momento tão especial na vida deles.

 Mapa de Angola 1970
Máscara Masculina Tchokwe República Democrática do Congo

Há muito tempo, essa máscara era conhecida como Pwo (mulher). A mulher era considerada um modelo perfeito de maturidade, sabedoria e experiência. Com o passar do tempo, houve a necessidade de adaptação aos novos modelos sociais e, agora, essa máscara é conhecida como Mwana-Pwo (jovem mulher ou rapariga); lembrando que o termo rapariga não tem o mesmo sentido entre o português europeu e brasileiros. Mesmo com os novos padrões que a sociedade está vivenciando, a figura feminina continua com seu poder de validar ou criticar o que for do comportamento da sociedade tradicional desse povo. Como acontece tradicionalmente na grande maioria dos povos bantu, as máscaras são usadas em momentos de evocação e contato com os antepassados entre homens, um culto aos ancestrais. Por isso, Mwana-Pwo é fundamental na vida dos nossos irmãos que são desse povo, pois eles a têm como guia para educar e orientar todos.

A associação que fazem dela é uma cerimônia de iniciação masculina. Quando meninos jovens estão em transição da infância para a puberdade, eles são separados de suas mães. Seu uso acontece no terreiro em forma de dança para entreter a comunidade e celebrar essa passagem que os meninos estão passando. E, por ser uma máscara feminina, ela exerce o poder de crítica comentado anteriormente.

As máscaras são feitas com traços femininos pelo artista e que ele mesmo escolhe de qual mulher será ou como será, só não pode fugir dos traços que fazem parte do padrão estético da escultura deles. Nesse rosto, o escultor procura retratar das complexas representações, simbolismos até a fecundidade. A maneira que o bailarino se apresenta quando está com a máscara – sim, o bailarino – exige uma forma singular para transparecer a elegância feminina, fazendo movimentos mínimos para valorizar os movimentos da parte da cintura por conta da ênfase que precisa dar ao cinto característico da dança ciyanda. Para o povo da aldeia é fundamental que as qualidades femininas consideradas pelos Tchokwe perpetuem: delicadeza nas atitudes, fertilidade, beleza, força da juventude.

Bailarinos prontos para a cerimônia
Máscara Mwana-Pwo

Se você ainda não conhece nosso canal Coração Africano no Youtube, deixo aqui o link para que você possa estar com a gente por lá também. Não se esqueça de se inscrever, acionar o cininho e dar aquele joínha.

Até a próxima!

Por que dei nomes africanos aos meus filhos

Todos nós sabemos que uma das melhores maneira de dominar alguém, um povo ou um grupo é através da mente. Se a gente conseguir entrar na mente do grupo, dessas pessoas, é praticamente 100% de poder que temos sobre ela. E foi isso que acontecendo com a nossa perda de identidade durante a escravidão no Brasil. Existe um reflexo muito grave sobre identidade em todos os sentidos, foi um genocídio, apagaram pela mente, pela memória. O genocídio não é somente através de tiro, de bala. E esse apagamento de identidade foi o que os europeus fizeram quando sequestraram os nossos antepassados para serem escravizados no Brasil. Eles enriqueceram dessa forma. Mesmo tendo acontecido tudo isso, a gente precisa agora resgatar a nossa identidade. O Brasil vende sua imagem como se todos vivessem bem, a maioria da população autodeclarada negra, mas é um país racista. Isso não tem congruência. Então é urgente resgatarmos nossa identidade, centralizar nossa vida, nosso pensamento nas nossas origens. Cada pessoa tem seu ritmo. Existem muitas maneiras de fazer isso: roupas, estudos, comportamento.

O post de hoje fala sobre o resgate através dos nomes. Nomes são palavras e palavras têm força. Então, o nome tem uma força. A todo momento a gente está chamando aquela pessoa por aquela palavra, aquele nome. As características do nome serão inseridas na formação da personalidade daquela pessoa, é como um mantra. Não sei vocês já tiveram momentos de olhar para alguém e pensar que ela combina com o nome que tem ou que não combina com o nome que tem. É isso! A pessoa acaba se parecendo, vamos dizer, com as características que compõem aquele nome.

Dentre os itens que tem no conjunto de identidade é o nome, valorizar os nomes das nossas origens. Em vez de valorizamos os nomes dos europeus, dos orientais, de outros povos, vamos valorizar o que é nosso. Não há problema algum nisso. O problema está sim nas críticas que recebemos quando valorizamos nossa cultura africana, mas nenhum outro povo é questionado como a gente. Por quê?

Eu, Gláucia, sempre tive interesse em saber os significados dos nomes. Quando comecei a voltar minha atenção para os estudos africanos, logo decidi que quando tivesse filhos, seus nomes seriam africanos. Eu escolhi Lueji por causa de uma novela angolana, mas obviamente que antes de colocar o nome somente porque gostava, eu busquei seu significado. Minha filha se chama Lueji Nyota, também buscamos o significado de Nyota. O nome do Béenesha também, a gente buscou o significado. Temos que escolher com bastante cuidado porque um nome não se troca como roupa, é algo muito importante e sempre vamos querer o melhor para os nossos filhos. Confesso que nunca vi significado ruim de nome, mas quanto mais critérios termos, melhor. Como é difícil mudar nome, se conseguirmos dar sobrenome, OK, um passo por vez. Porém, hoje em dia, há muitxs irmãos e irmãs que usam socialmente nomes africanos e não há problema algum nisso.

O importante é buscarmos nossa ancestralidade. Dá pra começar por diversos caminhos: estética, moda, nomes, estudos. Cada pessoa tem seu processo.

Quem quiser assistir ao vídeo desse mesmo tema, acesso o canal Coração Africano!

Crise de identidade: uma reflexão no contexto diáspora Brasil

Dia 9 de agosto, fizemos uma live com o intuito de refletirmos sobre a crise de identidade no Brasil. Para essa reflexão, convidei o Kamanda porque ele tem muitas coisas interessantes para nos falar sobre esse assunto.

O assunto é importante para falarmos não somente no Brasil, mas para todos nós pretos do mundo, seja quem nasceu no continente africano ou na diáspora. Em primeiro lugar, precisamos definir o que é a identidade, isso é muito importante. A identidade é um conjunto de características dos valores espirituais, culturais; os valores sagrados para um povo, por exemplo. São essas características que formam a identidade de um povo. Essa questão dos valores envolve nós como povo. Isso é globalmente.

Por meio das participações que teve em atividades raciais no Brasil, o Kamanda pode ver bastante sobre a questão identitária. O Brasil conheceu um processo muito diferente dos outros povos em relação à escravidão, existe uma crise, como no continente. A crise se manifestou quando o indivíduo foi levado à força pra algum lugar, deram pra ele trabalhos forçados, tiraram a cultura dele, tiraram todos os valores dele. Os proprietários deram seus nomes aos escravos, assim a pessoa começa a perder seus valores, suas raízes, assim começa o processo de apagamento. Ao longo do processo, existe uma agenda. Na história do Brasil, lá no início dos anos 1900, foi criada uma agenda política para o apagamento total da identidade, da cultura, dos valores do povo preto. Comparando aos europeus, eles mantêm seus valores, seus nomes, religiões etc. Mas o povo que foi escravizado perdeu toda a sua origem, nem dá pra saber de qual parte da África o escravizado é. Hoje o povo não sabe nenhum traço de qual parte do continente africano eram seus antepassados. Por exemplo, nos Estados Unidos, os japoneses americanos mantêm tudo que é da sua própria cultura, os chineses também. Inclusive há um bairro em Washington, DC que se chama Chinatown, que é todo configurado em chinês, no coração da capital dos EUA. Esse exemplo nos permite continuar o raciocínio no caso dos nossos irmãos tanto nos EUA quanto no Brasil. Diferentemente de outros povos, os nossos irmãos dão nomes europeus aos seus filhos. Outro exemplo de perda de identidade também é um africano nascido no continente, na aldeia, e não saber a língua do seu povo, mas se orgulhar por fala a língua do europeu.

Existem outras coisas também, como as práticas, as tradições. Exemplo, a espiritualidade, pois a religião foram os europeus que impuseram. Aliás, outra coisa que eles fizeram em África foi dividir o continente nos países existentes hoje. Essa conferência para a divisão aconteceu em 1885. Antes disso, o continente era separado por povos. Por isso que hoje, por exemplos os Bakongos estão em mais de um país. E como o povo Bakongo hoje está dividido, isso faz com que se chegue ao objetivo da colonização, que é a discriminação entre si. Um povo que se desentende entre si fica desestruturado. Entendem o porquê de a supremacia branca sempre querer dividir o povo preto?

Então, o que aconteceu no Brasil é que após a escravidão foi criada a política do embranquecimento. Foi uma agenda política de apagamento da identidade do povo africano. Com outros povos é diferente. Quem é descendente de japonês, chinês, alemão etc. tem orgulho de autodeclarar descendentes. E nós deveríamos ter não só orgulho de autodeclararmos africanos, mas também uma responsabilidade com nosso povo; mesmo quem nasceu na diáspora. Uma maneira de se reconhecer como tal e não estamos acostumados no Brasil é isso. Podemos ter exemplos de pretos que nasceram em outro país, mas se definem como africanos. Por quê? Porque eles têm identidade, eles sabem e reconhecem sua descendência. Mas isso se explica pela forma brutal como o projeto foi realizado no Brasil, um país onde a maioria da população que foi drasticamente violentada e ainda consegue conviver bem com seu inimigo, com quem te maltratou. Isso é questionado pelos pretos estrangeiros, inclusive. Infelizmente, essa política do embranquecimento deixou uma marca muito forte. Se uma pessoa é filha de casal interracial, a tendência é ela escolher o lado branco porque, no Brasil, quando se declara branco automaticamente a pessoa tem privilégios. Política genocida.

Esse projeto, essa política no Brasil tinha a intenção de que o Brasil estivesse branco até 2012. Não teve sucesso, mas conseguiram intensificar a miscigenação. Quanto mais perto do tom de pelo do branco, mais privilégio você terá. E isso dá uma confusão de identidade na pessoa. A gente entende que esse problema no Brasil é inevitável de acontecer. Cada pessoa tem seu tempo de reconhecer isso, sua identidade. Não é nem questão de tom da pele, de ser mais claro ou retinto, é de se reconhecer de tal povo. Na África mesmo, existem povos com tons de pele mais claro e mais escuro. Portanto, a intenção dessa conversa é levar os irmãos e irmãs à reflexão sobre sua identidade. É um assunto extenso, então aqui só foi plantada a sementinha.

Para quem quiser assistir à live completa, acesse aqui.

Como me reconheci africana Dia da mulher africana

Hoje, 31 de julho, comemoramos o Dia da Mulher Africana. E pra celebrar, quero falar sobre o meu processo de reconhecer minha descendência africana. Esse despertar foi fundamental para mim porque consegui ressignificar de forma legítima o meu estar nesse mundo.

Tudo começou com a mudança de cabelo. Comecei a alisá-lo por volta dos 10 anos de idade. Era a partir dessa idade que ouvíamos a mãe falar que seria a hora de alisar o cabelo, como se fosse uma obrigação. Inconscientemente, até acho que sentíamos essa obrigação. Quando decidi mudar eu já estava bem mais velha, há 8 anos. Comecei pelo cabelo mais por questão de estética. Usei tranças por quase 3 anos até que toda a parte lisa se acabou. Ao parar de usar tranças, veio a pergunta: E agora, o que faço? Sem pensar muito decidi assumir o black power. No início, confesso, não foi fácil, afinal a gente cresce aprendendo a odiar nossas características naturais. Mas com o tempo, eu fui amando e me apaixonando por mim mesma. E sabe quando isso aconteceu de fato? Quando tive um insight para ler sobre a África. Esse insgith veio porque um grande amigo se mudou para um país africano a trabalho. E aí veio na minha mente: Peraí, África? Como se vivem em África já que tem tanta pobreza? Acredito que muita gente irá se identificar com esse meu pensamento porque é o que a mídia nos mostra sobre o continente-mãe, não é mesmo? Foi então que resolvi pesquisar pela internet mesmo. Comecei a olhar as roupas africanas e aquilo foi me fazendo querer saber mais e mais.

Na mesma época, eu estava cursando especialização em Linguística com ênfase em Revisão de Textos. E o meu TCC seria no formato artigo científico. Vocês podem estranhar, mas eu gostava de ler a origem das palavras no dicionário, e foi aí que percebi que na língua portuguesa do Brasil nós temos muitas palavras de origem africana. A intuição mais uma vez me mostrando o caminho. Pronto. Fiz meu artigo sobre a influência das línguas africanas no português do Brasil. Admito que hoje em dia ao lê-lo percebo um discurso bastante ocidental, mas me perdoo porque eu estava começando a ter contato com minha terra e ainda não tinha essa compreensão de que o Ocidente é perverso no discurso sobre a África.

Depois, passei a procurar tecidos e fazer roupas, até que meu guarda-roupa ficou mais da metade com tecidos africanos. Eu me sentia outra pessoa, me sentia plena, o desejo de me encaixar em estereótipos que não me perteciam cessou, afinal eu encontrei o meu de verdade, e AMEI. A partir daí minha vida começou a girar em torno da África. Qualquer coisa que eu faça eu tento centralizar África: nome dos filhos, como resolver tal situação, qual música escutar, etc. E quanto mais a gente se insere, mais queremos estar conectados às nossas origens.

Eu penso que a gente não se torna africana(o), nós recordamos e nos reencontramos. A África não é só uma roupa bonita e uma música gostosa de dançar. Tornar-se africana é trabalhar a mente também. Pensar África envolve adotar hábitos no dia a dia, maneiras de lidar com as situações que a vida nos apresenta, centralizar a África na nossa vida. Mesmo eu me considerando africana, ainda tenho um longo caminho a percorrer. Ser criada no continente e ser criada fora dele são realidades totalmente diferentes. Crescer no continente e com os ensinamentos tradicionais africanos eu classifico como privilégio porque nós da diáspora Brasil tivemos toda a nossa história apagada, e fazer esse resgate sozinho é extremamente trabalhoso porque não sabemos nada.

África é cultura. África é sabedoria. África é descoberta. África é espiritualidade. É um lugar ímpar. É muito importante que todos nós, pretos, reconheçamos nossa origem africana porque qualquer coisa que o Ocidente cria não nos pertence, não é pensando para nós, a não ser se for para business, para eles ganharem dinheiro em cima das nossas pautas. Portanto, vamos assumir com amor nossas características naturais africanas, nossa cultura, vamos saber mais como é a espiritualidade africana. As outras sociedades fazem isso também, é direito de todas. O problema está quando um descendente judeu, asiático, europeu, indiano segue a cultura dos seus ancestrais, eles são exaltados. Mas quando é um descendente africano que faz isso, ele é minimizado; muitos pretos têm vergonha de serem pretos e têm pavor de assumir sua descendência africana. Sabe por que isso? Porque o ocidente nos ensinou que tudo que vem da África é negativo. Mas eu acredito que sempre é tempo para o resgate, cada um tem seu momento.

Vamos exaltar nosso continente que nos deu a vida! VIVA ÁFRICA!

Dra. Marimba Ani: Sexualidade Africana

Depois de tanto tempo em stand by, o blog Coração Africano vai voltar a compartilhar o que aprende sobre africanidade e está aberto a sugestões para tema. Na seção ABOUT tem o endereço de e-mail para contato.

E essa volta será registrada através de um post com poucas palavras minhas, mas com bastante reflexão trazida pela Mama Marimba Ani no vídeo a seguir.

Eu ouvi falar dela há poucos meses através de um irmão panafricanista. O nome dela ficou na minha mente. A Drª Marimba Ani é Antropóloga Africano-Centrada, autora de Yururgu, Let The Circle Be Unbroken, dentre tantas outras obras importantes para o povo preto. Este vídeo abaixo é o meu primeiro contato com seu material, fiquei bastante pensativa com tudo que ela disse sobre a sexualidade africana.

Marimba Ani inicia sua fala numa palestra saudando todos em línguas africanas. Ela justifica que nos cumprimentarmos na língua dos nossos ancestrais é importante porque somos uma família e estamos nos reconectando. O tema será exposto por ela por meio de um olhar espiritual, cultural e política. A palestra decorre sobre como nossos ancestrais tinha uma maneira bastante sofisticada de lidar com a sexualidade. Então, ela fala como nós nos perdemos nessa questão após o MAAFA (desconexão do modelo de civilização africana) e nos levará para a compreensão através da estabilização do contexto de M´AAT, que é o equilíbrio na visão africana.

Para assistir ao vídeo, CLIQUE AQUI!

Boa Palestra!

A Importância da África para a História do Brasil / L’importance de L´Afrique Dans L’Histoire Du Brésil

Olá, pessoal. Reconheço que ando em falta com o blog Coração Africano. Em razão de assuntos pessoais, acabei me afastando um pouco das publicações, mas agora tudo está se alinhando e conseguirei retomar ao compartilhamento do que aprendo aqui neste espaço.

O retorno ficará registrado com uma novidade que, para mim, Gláucia, é muito gratificante: meu artigo publicado numa revista de História de Fortaleza, Brasil. O resumo do texto está logo abaixo, para acessar o material completo, CLIQUE AQUI. Até breve.

A IMPORTÂNCIA DA ÁFRICA PARA A HISTÓRIA DO BRASIL

Gláucia Quênia Bezerra de Lima

Resumo

Durante muitos séculos, o continente africano foi negligenciado pelos europeus. Eles roubaram toda a herança que a África construiu dentro da cultura, filosofia e ciência tornando hegemônicas essas áreas. É importante que, com a fácil acessibilidade a referências que a tecnologia oferece hoje ao ser humano, os africanos do continente e da diáspora passem a alimentar-se do conhecimento deixado por seus antepassados. A África tem sua própria e rica História, mesmo antes da invenção da escrita. E quando se fala África, é tanto o norte do continente, acima do Saara, como a parte Subsaariana já que muitas pessoas não associam o Egito, por exemplo, como um país africano. Chegou a hora de conhecer a verdadeira história africana pelos próprios africanos e não pelos europeus, que tentaram e conseguiram deturpar totalmente quaisquer informações positivas sobre o continente berço da humanidade. Portanto, este artigo visa a ajudar o leitor a construir seu próprio senso crítico por meio dos autores que defendem a importância da África para a História do Brasil. 

PALAVRAS-CHAVE: História da África; ciência; cultura; diáspora; Afrobetização

L’IMPORTANCE DE L’AFRIQUE DANS L’HISTOIRE DU BRÉSILRÉSUMÉDurant plusieurs siècles, le continent africain a été négligé par les européens. Ils ont volé l’héritage que l’Afrique a construit dans la culture, la philosophie et science, devenant eux-mêmes hégémoniques dans ces secteurs du savoir. Avec l’accès facile aux informations que la technologie offre, il est important que les africains du continent et de la diaspora s’alimentent des connaissances légués par leurs ancêtres. L’Afrique a sa propre riche histoire, avant même l’invention de l’écriture. Et quand il s’agit de l’Afrique, c’est à la fois le maghreb et la partie subsaharienne. L’heure est arrivé de connaître la vraie histoire du continent par les propres africains, car les européens ont tenté de detruire et d’ignorer l’héritage indiscutable du berceau de l’humanité. Cet article vise à aider le lecteur à construire son propre sens critique.

MOTS CLÉS: Histoire de l’Afrique; Histoire du Brésil; Science; Culture; Afrodescendant

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